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O que fica da aldeia?

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Poiares. fotografia: Eduardo Guerreiro

Entrevista a Vanessa Parauta na sequência de uma experiência de vida diferente das comuns a que temos acesso nos blogs informativos, principalmente com vertente activista.

Cresceu numa aldeia do Norte de Portugal, Poiares. Formou-se em Publicidade e Relações Públicas no Instituto Politécnico de Viseu. No tempo livre faz roupas que estão sempre a acompanhar tendências. Os trabalhos são divulgados na página online Lovely. Será uma Mulher do Norte ou isso é mito?

1 – Qual é a primeira coisa em que pensas quando se fala do sítio onde cresceste?

Penso na tranquilidade e paz interior que por lá se sente. Desde que vim para Lisboa que é das coisas que mais falta sinto. A paisagem magnifica também é uma coisa que nunca vou esquecer.

2 – Que características da tua personalidade consideras estarem associadas a não teres crescido numa grande cidade?

Modéstia à parte, sou muito trabalhadora e não tenho medo de “meter as mãos na massa”. A simplicidade também é uma delas. Uma vez que cresci num meio pequeno, quase que somos “obrigados” a ajudar em todas as tarefas tanto dentro de casa como seja com a família/amigos. Se alguém precisa de alguma coisa, aparece toda a gente para ajudar no que quer que seja. Cada vez mais vejo que isso se perdeu na cidade.

3 – Da tua experiência pessoal consideras que já existe uma mudança de mentalidade, relativamente aos direitos das Mulheres, também em espaços como vilas?

Sinceramente, penso que sim. A Mulher já não ocupa só o cargo de dona de casa, apesar de ainda haver algumas reservas neste ponto.

Cada vez mais se veem Mulheres à frente de grandes postos de trabalho, com responsabilidade que antigamente estavam destinadas aos Homens. É comum serem as Mulheres a gerirem negócios que dão lugar a vários postos de trabalho como é o exemplo da creche onde a minha Mãe trabalha: sempre me lembro de ser gerida por uma Senhora. Por outro lado, ainda continua o estigma de que uma Mulher tem de ser politicamente correta e não pode sair fora dos padrões que a sociedade impôs. Porque é feio sair a noite, porque não se deve sair com vários rapazes e beber um copo à noite então é um horror. Num meio pequeno torna-se difícil acabar com os paradigmas criados anteriormente.

4 – Diz-me um cheiro que te lembre casa.

Cheiro de lareira e de comida feita no forno. Ai as batatas no forno da minha Mãe…

5 – A informação a que tens acesso, agora a viver na capital, chegava a ti antes?

Há muita coisa que me passava ao lado. Por exemplo, concertos, estreias de filmes no cinema, lançamentos de livros são coisas que não me lembro de fazer antes de ter 17/18 anos. Não quer por isto dizer que não ouvia boa musica, muito pelo contrario, principalmente através dos CDs do meu Pai. Mas era muito complicado ter acesso a esse tipo de informação.

Num meio pequeno também há coisas que pensamos que só se passam nas grandes cidades: raptos, violações, maus tratos. Não cresci com o medo de que isso podia acontecer. Sabia que existiam, mas não na minha aldeia.

6 – Achas que é preciso levar mais eventos ao Norte de Portugal?

Sem dúvida. Ainda me lembro de quando o circo passava na minha aldeia e todos nos reuníamos para ver o espetáculo. Depois tínhamos o grupo de teatro e fora isso poucos eventos tínhamos à disposição.  Hoje em dia já há vários eventos na zona do grande Porto mas mesmo assim, o Interior Norte fica sempre um pouco esquecido.

7 – Relativamente a padrões sociais tradicionais como o casamento, alguma vez achaste que ia ter mais impacto a tua decisão vindo tu de um meio mais conservador?

Até hoje a minha avó está à espera que me case. Já a avisei que não terá grande sorte, na minha Terra, quando se namora, é para casar, construir uma casa para depois se terem vários filhos. Nem que para isso se tenha que emigrar e passar uma vida longe de todos, mas a casa vai-se fazendo. Desde nova que dizia que não queria casar. Julgo que essa pressão social de namorar para depois casar está cada vez mais a acabar. Filhos? A longo prazo se verá.

8 – O que é que falta a pessoas de grandes cidades a que pudesses ter tido acesso em Poiares?

Agora que vivo numa grande cidade, sinto muita falta do contacto com a Natureza. Gosto das oportunidades que Lisboa me dá, mas sentires que não precisas de ser extremamente consumista para que possas viver é uma sensação inexplicável. Quando visito a minha Terra fico sempre encantada com o que vem para a mesa, por exemplo. Metade dos produtos foi a minha mãe que trabalhou neles ou um vizinho que lhe deu ou comprou a uma senhora que os preparou no dia anterior. Sinto falta disso e de levar uma vida mais desapegada das coisas e do consumo instantâneo.

9 – És uma pessoa com uma mente aberta e que tende a respeitar ideias não conservadoras. No entanto existe o estereótipo que as pessoas educadas em meios pequenos são conservadoras. Concordas? De onde vem o teu espírito livre?

Concordo. Até aos 16 anos estudei num colégio católico, dirigido por vários padres. Como podes imaginar, liberdade era uma coisa que nos era dada em conta e medida. Talvez por ter ficado a viver só com a minha Mãe aos 13 anos e ter sido “obrigada” a crescer rápido, fui percebendo que a vida não era como nos diziam que tinha que ser. Num dia estamos num sitio, mas amanha já podemos querer voar para outro. Sei que essa fase da minha vida serviu para abrir os horizontes e ver que não tinha que ser tudo tao linear como até então parecia ser.

10 – Fazes roupas lindas. És licenciada em Publicidade e Relações Públicas. Tens capacidade para fazer coisas diferentes. Adaptar-te. De onde achas que vem toda a tua dinâmica pessoal?

Como referido anteriormente, acho que a versatilidade deve-se ao facto de que desde nova me foram habituando a fazer várias coisas ao mesmo tempo. És criança, mas acompanhas os adultos em todas as atividades desde ir para a horta, a estar na cozinha a fazer um bolo e mais tarde ir apanhar lenha para a lareira. Como também cresci no meio de linhas e tecidos e sempre ouvi falar de modelagem, acho que ajudou a manter o bichinho vivo até ao ponto de eu querer que ele falasse.

 12 – O que é ser uma “Mulher do Norte”?

Uma Mulher do Norte é forte. Não se abala com qualquer coisa. As mulheres do Norte têm uma personalidade muito fincada. São divertidas e simpáticas, porém, são as primeiras a dizer o que não está bem e a reclamar por isso. Às vezes também são reservadas e não gostam que se metam na vida delas, mas no fundo são senhoras do seu próprio nariz.

(note-se que ao escrever estas características fui-me lembrando de todas as Mulheres nortenhas que se cruzaram comigo por algum motivo, foi esta a ideia que deixaram.)

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