Artigos / Marta Tofua

Feministos, misândricas e outras palhaçadas.

As redes sociais cobriram-se com uma imagem de um gajo com um cartaz que tinha escrito: “estou despido, rodeado pelo sexo oposto. Sinto-me protegido, não intimidado. Quero o mesmo para elas.” Não demorou muito a que ele fosse identificado e surgissem relatos de violência e abuso por parte do mesmo. Francesca Palma, ex parceira e com uma filha em comum, foi quem o denunciou publicamente num post do Facebook (traduzido aqui em português).

male_tears_by_xkurisuteru-d81d1fw.pngImage: Ominaze

Não consigo entender honestamente a linha que divide estarmos cansadas de sermos misândricas. Estou honestamente cansada de homens no feminismo quando a postura é autoritária e a intenção é o protagonismo. Estou cansada de que se espere das pessoas comportamentos exemplares, híper compreensão, silêncio na denuncia, sororidade no momento de acusar abuso que a irmã fez. Somos todas misândricas por não concordarmos com existirem homens feministas mas não é misandria o momento em que se decide que a amiga fufa pode ser abusiva com outra irmã, porque epá, é uma gaja e está fragilizada. Somos corpos que se movem pelo ego e não existe quem esteja imune a isso. É difícil compreender até que ponto uma atitude é genuína. Até que ponto aquilo que está a ser feito e dito é com uma intenção de mudança e não com a intenção de protagonismo. A verdade é que eu preferia andar a apanhar a merda que o meu cão ainda faz em casa do que a ter que lidar com discussões online do que é ou não feminismo perfeito. Sinto-me incrivelmente maravilhosa a limpar mijo da alcatifa, mais do que a ter que lidar com picardias online porque ou somos demasiado feministas ou somos demasiado misândricas, ou somos demasiado bonitas, ou somos demasiado arrogantes, ou escrevemos bem ou escrevemos mal. Mas estou. O meu feed do Facebook tem dias que é um vômito de rancor e insegurança, mas está tudo bem. Sou eu que o escolho manter assim. Sou eu que escolho chegar à frente e dizer que lutar por pessoas pobres utilizando apenas linguagem académica é hipócrita. Sou eu que escolho dizer que não tenho paciência para homens cis que até “iam com gajos” (mas nunca vão porque é tudo para Inglês ver e “até é um bocado estranho”) estarem a controlar minorias e grupos desprivilegiados.

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A imagem falada no inicio do artigo ficou famosa por ser um gajo branco a segurar um cartaz todo fofo. Em todas as partes do mundo existem Mulheres com cartazes a relatarem experiências pessoais, graves. “Fui violada.” “Ele disse que me matava.” “O meu patrão apalpou-me.” “Tocou-me no peito quando eu tinha 8 anos.” As imagens circulam por aí principalmente se estivermos inseridas em círculos activistas, as imagens circulam por aí como circulam outras quaisquer. Aquela não, aquela foi especial, aquela imagem tinha um homem a falar por nós – a pedir ajuda por nós. Existe alguma coisa de errado com isso? Não, o que existe de errado é serem esses os momentos que têm mais espaço e são efectivamente mais ouvidos. Uau, um homem a ser tão sensível. Não – um opressor, agressor, abusador e oportunista. Quando digo que todos os homens oprimem, saltam-me para cima como se eu estivesse a dizer que todos os homens violam. Não – todos os homens oprimem porque fomos educadas a sermos inferiores, mais fracas, vulneráveis, ao contrário deles que foram educados a serem fortes, corajosos, machos!

Esta pessoa em particular não era uma exceção à regra no pedido de direitos, nós fazemos isso todos os dias, mas somos as feminazis, as fufas mal comidas, as que vão ficar para tias e que têm a casa cheia de gatos. Ele não, ele destacou-se, ele merecia ser ouvido. Contra mim falo que partilhei a imagem e achei aquele momento lindo. Parva Marta, parva. Não demorou muito até perceber que não, não existem exceções e se existirem eu não quero saber.

O relato desta Mulher é a experiência de muitas outras que nem sempre podem denunciar publicamente. Não existe nada de errado em denunciar, se houvesse então andávamos a brincar à porrada que a vizinha levou e a ensinar estratégias de manipulação durante os recreios. Enquanto a minha voz incomodar, estou a fazer o trabalho certo. Expôr feridas. Espontaneamente honesta: não estou interessada naquilo que as pessoas retiram do que digo ou se a linha que divide o cansaço da misandria é constantemente desafiada. Igualdade para todos os géneros não significa um dos géneros ter espaço para propôr mudança e o outro não. Igualdade para todos os géneros não significa que o namorado da tua amiga é um abusivo por gritar e manipular mas a namorada da tua amiga não pode ser abusiva, fazendo exatamente o mesmo, porque tem depressão. Estou a falar da vida real. Problemas reais. Lá fora. Igualdade é o que me faz sentido e se já me tive que calar tantas vezes para homens me educarem então é de igual forma importante nos ouvirem agora e se deixarem educar.

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De boas intenções está o inferno cheio e de feministos opressores cheios de boas intenções estou eu cansada. Quando se zangam as comadres, descobre-se que não existe activismo para ninguém. Assim como a galinha da vizinha é sempre mais feminista que a minha.

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