Artigos / Cultura / Marta Tofua

É Trump Que Se Aborte

O direito ao voto é a base da democracia, foi o momento em que alguns elementos da sociedade passaram a ser cidadãos. Ainda que todo o processo tenha sido lento e seja recente o direito da Mulher ao voto, estamos aqui. Democraticamente aqui.

trump.jpgIllustration: Rob Beschizza

O que está a acontecer na América diz-nos respeito. A partir do momento em que a sociedade quer e pede espaço e tempo para ideias conservadoras, racistas, xenófobas, misóginas e sexistas, isto diz-nos respeito. O que é que nos aconteceu, o que é que aconteceu à construção da evolução? No que é que nos estamos a transformar?

Ontem aconteceu o terceiro debate presidencial entre o Trump e a Hillary, ontem foi para o ar no mundo inteiro mais um refluxo de ideias conservadoras, assassinas e sexistas. Ontem o Trump decidiu o que fazer com o nosso corpo, com a nossa voz, com o nosso tempo de antena, com o nosso sofrimento, com a nossa vergonha, com o nosso medo, com os nossos filhos, com o facto de não querermos filhos, com as nossas famílias, com a nossa boca, o nosso peito e f*da-se, com a nossa c*na. Vou deixar os números e estatísticas para quem entende e concentrar-me no facto de só querer dizer palavrões cada vez que ele fala. Isto não é um ódio a um gajo rico que se gaba de construir uma grande empresa sendo que o financiamento dela são os biliões que o pai lhe deu ou “emprestou” segundo o mesmo. Isto em nada tem que ver com o facto dele ter apalpado Mulheres, beijado Mulheres nunca com o consentimento delas. Muito menos tem que ver com o facto de ele se direcionar a nós como feias e gordas. Não és branca, magra e preferencialmente loira? Fica descansada, ele não te quer violar. Não por ser crime mas porque não preenches os requisitos de uma bela violação num fim de tarde ao pôr-do-sol.

Ontem o Trump falou sobre aborto e sobre o facto de ser pró-vida. Reparar aqui que pró-vida funciona de forma selectiva. Se fores negrx, latinx ou asiáticx podes morrer. Na boa, sem stress. No entanto se perceberes que não tens condições para ter uma criança, se a tua criança for diagnosticada com determinadas doenças ou se quase no fim da gestação te disserem que a tua criança estará morta no momento do parto e tiveres que tomar a horrível decisão de a retirares de ti para não carregares um corpo morto, nesse caso, tu és uma egoísta nojenta e o Trump é pró-vida. Como se diz: pro-life it’s a lie, you don’t care if women die (pró-vida é uma mentira, tu não queres saber se as Mulheres morrem).

Eu podia estar a falar da Hillary e recusar-me a falar do Trump, podia sim, mas o que a Hillary está a fazer é uma campanha decente. Não quero saber se ela tem esqueletos no armário, só quero saber que as pessoas não tenham que se tornar esqueletos no armário. Quero saber que não vou ter um pedófilo, violador, racista e xenófobo a controlar um dos países mais poderosos do mundo. Foi a isKey-moments-in-final-Clinton-Trump-debate.jpgto que chegámos – ter homens poderosos a dizer a outros homens poderosos que não faz mal serem eles a decidirem o que nos acontece. Foi a isto que chegámos – passos atrás no medo de andar na rua. O Trump não está a influenciar apenas pessoas nos Estados Unidos, o Trump está a influenciar todas as pessoas que esperam por ouvir: vai, força, come aquela mesmo que ela não queira.

PHOTO: Chip Somodevilla/Getty Images/AFP

“Ninguém respeita mais as Mulheres do que eu” diz o Trump, minutos depois enquanto a Hillary fala ele aproxima-se do micro e ataca-a com: “ Que Mulher nojenta” ou segundo a tradução do google e se preferirem: “Que Mulher desagradável”, eu fico-me por “nojenta” tendo em conta a expressão dele de repulsa. Fantástico, temos um candidato a presidente dos Estados Unidos que se dirige a outra candidata em pleno debate assistido em todas as partes do mundo para lhe chamar nomes. Eu pensava que para chegar a tal cargo ou tentativa de cargo, era necessária uma postura correcta, humildade e sobretudo respeito. Afinal trago boas notícias: és um gajo branco, bronco, rico e com cor de solário patrocinado pelo PSD de tão laranja que ficas, então podes ser o nosso presidente dos EUA.

Podia terminar isto com humor, toda a história de rir para não chorar, mas não há aqui nada para rir. Estamos a retroceder, estamos a permitir que os nossos medos cresçam, que deixemos de ter voz, que os nossos salários não se tornem justos. Sim, nós, porque o que acontece às minorias noutra parte do Mundo também nos acontece a nós – somos feitxs do mesmo, opressão. O Trump não é um papão, um mito, uma coisa para se dizer às nossas filhas quando elas não querem dormir – o Trump é o que muitas minorias podem estar a ouvir. Estão a aprender que não têm valor, capacidades, poder de decisão. Que são lixo e ocupam muito espaço. O Trump é o modelo que muitas crianças, jovens e homens vão escolher seguir e sorte a nossa de termos crianças que não querem ir para a cama – porque não estamos a salvo – nem elas. Qualquer dia somos recordações, nós – as que não se calam, as feias, gordas e feministas.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s