Artigos / feminismo / Marta Tofua

Activismo Poliamor e Masculinidade Tóxica

Começo sempre os meus textos a dizer que tudo o que falo sobre poliamor é apenas sobre o meu poliamor. Começo sempre os meus textos a dizer que cada relação tem regras diferentes e que desde que seja consentido, é válido. Hoje não quero dizer isso. Hoje quero dizer que independentemente de ser uma relação poliamorosa ou monogâmica, existem bases que têm obrigatoriamente que existir. Essas bases são coisas básicas para pessoas com conhecimento em abuso, toxicidade e manipulação. Essas bases são o respeito e a liberdade. Estas coisas nem sempre existem e estão descaradamente disfarçadas de poliamor. De sabedoria. De consentimento. De aprendizagem. De tolerância. Isso não é poliamor, é manipulação, é bullying e é agressão. Isso não é amor: é o ego de alguém a vencer todos os dias.

Um dia despedi-me de alguém também poly a dizer que ia ver um filme. A resposta que recebi foi: *enrosca-se nela a ver o filme*. Numa outra altura teria respondido mal, teria dito que aquilo não era okay mas ali era – supostamente – porque o fascínio pela sabedoria artificial se sobrepõe aos nossos limites. Muitas outras vezes confundi uma invasão enorme do meu espaço e dos meus limites com boas intenções. Achamos sempre que não faz mal, que é seguro, que se a voz é dada todos os dias a alguém é porque a pessoa sabe o que está a dizer. E sabe: mas sabemos nós o que essa voz nos está a fazer?

Muitas das manipulações, abusos e agressões que vivi ou que tomei conhecimento de acontecerem vieram exactamente de dentro do meio activista. Do meio de uma comunidade que grita valores e moral aos sete ventos. Mas os ventos estão todos trocados e as rajadas de masculinidade tóxica não trazem apenas gripes mas dependência e silêncio. E o nosso espaço para falarmos, amarmos livremente, vivermos sem pressões ou pressupostos sociais passa a ser um lugar que o nosso corpo simplesmente ocupa. Caladas. Companheiras. Uma sombra de elitismo, classismo e poderes académicos. Passamos a ser Mulheres por quem alguém luta melhor que nós. Não somos suficientes. Somos lésbicas fetishizadas, as nossas namoradas são adereços para a imaginação perversa de alguém, a nossa assexualidade não é totalmente respeitada e “até temos que fazer sexo”, somos poliamorosas mas não podemos estabelecer relações livremente. Não podemos – mas há quem possa. O poliamor traz choro e conversas de horas – o poliamor não pode trazer manipulação, sentimento de culpa, privar a que sejamos felizes, gritos, faltas de respeito, agressividade, imposição de limites ou falsas boas intenções que depois se transformam em discussões e ataques.
A minha voz só a mim me pertence mas isso não significa que eu possa falar por cima de alguém. Isso não significa que eu possa controlar alguém. Significa sim que a posso utilizar sempre que sentir necessidade de me defender ou de defender pessoas escondidas em tantas camadas da cebola que é o homem branco – e foda-se, essa é daquelas que faz chorar. Chega de ter homens a ocupar o poliamor e o feminismo como se nós não existíssemos. Chega de ser objectificada por pessoas que têm protagonismo na comunidade. De lidar com situações de conversas forçadas, beijos prometidos ou carinhos que não pedi mas que me acho no dever de agradecer e retribuir. A minha voz grita: estou atenta. Estou aqui. Não me vou calar. Que venham todas as rajadas de masculinidade tóxica, as nossas gerações já se calaram tudo o que havia para calar e agora ninguém me vai deixar ficar rouca. Tenho pulmões para gritar, braços para vencer e um coração enorme que não se deixa manipular. Sou gaja, fufa e poliamorosa – e não preciso que me ensinem sobre ser gaja, sobre fufa nem sobre ser poly.
Texto originalmente publicado em: Monogamia, não obrigada!
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