Artigos / feminismo / Marta Tofua

Oh Laurindinha

 

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                                                               (Fonte desconhecida)

Hoje estava a ver o meu feed de manhã e encontrei uma discussão sobre masculinidade e todas as aprendizagens sociais associadas que comprometem as conhecidas exceções, bem como demonstram que existe opressão constante. Na caixa de comentários tínhamos dois homens a discutir entre si. Negação contra Sobriedade.

Ontem na celebração pelo Dia da Rapariga uma amiga foi silenciada por um homem que considerava o propósito do dia descabido. Na caixa de comentários podíamos ler um homem a argumentar e a refutar as ideias do outro, não com a intenção de silenciar alguém mas porque, normalmente, é mais fácil responder racionalmente quando o tema geral não interfere com a nossa vida no quotidiano.

Na mesa, ao jantar, o filho e o pai falam de política. A filha também é incluída, só não é levada a sério. Já nos chamam para conversar, muitas das vezes para nos dizerem que está mal o que dizemos, sem nos explicarem a razão. O mundo acontece rápido e a festa da vida é só para os intelectuais. Para quem trabalha o discurso, antecipa o diálogo e sabe o que diz nos livros relativamente ao que outres vivem.

Os livros são caros. A educação também. O tempo é escasso. A oportunidade também. A voz é fraca. O peito também. O medo é vasto. A manipulação também.

Muitos dos textos que leio têm uma linguagem bastante privilegiada. Existem contextos em que assim nos obriga, mas falar sobre coisas reais para determinados grupos de pessoas não privilegiadas, utilizando um palavreado pomposo, parece-me nada inclusivo e sobretudo bastante hipócrita.

Tudo o que escrevemos (incluindo-me), tende a ser feito  para corresponder aos requisitos académicos. Isso cria uma barreira e não permite informação clara para as pessoas que estão geralmente incluídas nos temas que estamos a explorar. Pessoas mais velhas que não têm mais que o quarto ano por exemplo. Pessoas que percebem os temas, os vivem, querem aprender e falar sobre eles  mas que não têm determinadas bases para de facto se sentirem incluídas. Expressões inglesas. Estatísticas complexas. Artigos da Universidade – inserir universidade noutro continente -.

Houve alguém que me disse: não enviar artigos científicos às pessoas é que é ser superior, estou a partir do princípio que elas não têm determinadas capacidades. Na altura achei que aquilo fazia imenso sentido. Só que não. As pessoas não têm de facto determinadas aprendizagens  (não capacidades). Vocabulário extenso. Conhecimento de outras línguas. E isto não significa: tomem atenção porque existe gente burra.  Não. Pessoas sem determinados conhecimentos não são pessoas burras, aliás, são pessoas iguais a qualquer outra pessoa, que querem falar, partilhar experiências e combater opressão. Enquanto existirem polícias  da academia e pessoas activistas a dizerem de forma bastante clara que não querer ir para a universidade é vergonhoso, as lutas vão ser selectivas e privilegiadas.

Os livros são caros. A educação também. O tempo é escasso. A oportunidade também. A voz é fraca. O peito também. O medo é vasto. A manipulação também.

A violência não acontece apenas para pessoas que sabem o que significa mansplaining. Acontece também às que não sabem. O racismo não acontece apenas às pessoas que sabem que não existe racismo inverso. Acontece também às que não sabem. O poliamor não é experiência apenas de pessoas licenciadas. É também das que não o são. Feminismo não é apenas para quem estudou todas as suas ondas. É para quem procura lutar seja de que forma for, ou que não pode lutar mas gostava de poder.

Feminismo não é ver quantas vírgulas estão mal colocadas mas sim retirar tantos pontos de exclamação.

Oh Laurindinha, vem à janela

Ver o teu amor ai ai ai que ele vai para a guerra.

Se ele vai para a guerra, deixá-lo ir.

Vou ficar a lutar contra o sistema ai ai ai

Até liberdade conseguir.

Vou conseguir, se tempo houver

Tenho tanta a fazer, ai ai ai

Porque sou Mulher.

Tenho tanta a fazer, ai ai ai

Porque sou Mulher.

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